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2010
Honest Jon's / Flur

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O regresso a Hazyville: estranho lugarejo onde o fascínio tecnológico convoca o medo racional do amanhã.


O aviso de advertência fica, desde já, para quem não gosta do esforço que alguma música exige do espírito humano. Porque quem andar musicalmente desamparado poderá tropeçar – no dia que se cruzar com este disco – na ravina que conduzirá a sua animosidade fatalmente para uma obscura caverna urbana repleta de paredes mutantes, sombras enlameadas, andróides montados do avesso, distorções na continuidade do espaço, aranhiços metálicos ou almas atormentadas a vociferar para o vácuo e de lá sair desconfiado que existe mais vida para além do que percepciona. Excesso de ficção-cientifica de segunda categoria para caracterizar um disco como Splazsh? Talvez. Mas apesar da caracterização exagerada, talvez seja ela mesmo a mais precisa para descrever tão deslocada realidade sonora.

Ao segundo tombo Darren Cunningham não perdoa. Se Hazyville era um bizarro exemplo de como se poderia pegar nos elementos básicos do house de Chicago, o techno de Detroit, dubstep londrino ou o r&b sem código postal definido, dissecá-los para depois urdir uma argamassa obscura sem talhe pré-definido, Splazsh arrepia caminho nas mesmas avenidas repletas de imprevisíveis ravinas. Desta vez o bafo da novidade passa pela introdução de discretos elementos que abrem o leque de Cunningham à mais pura especulação. Junta-se, então, ao díscolo empastado que já conhecíamos abstractos elementos funk maquinal, esperma electro e tribalismo urbano com espasmos reminiscentes do imaginário jack. Mas, para que fique claro – e ironicamente –, fazer dançar não é definitivamente o objectivo deste estranho objecto conceptual.

Será obrigatória alguma passividade nos circuitos que transportam os sons dos tímpanos até à massa cinzenta. A resistência a Splazsh é inevitável até para quem se predispõe regularmente à divagação nos híbridos sonoros que por aí vão aparecendo. Não valerá a pena catalogação, porque o que aqui se descobre é de facto distorcido, contorcido e retorcido, é frio seco que queima a pele mais protegida, são ambientes de nebulosidade pesada onde se passeiam espíritos com causas pouco transparentes. E não se pense uma vez mais que as descrições inspiradas em series sci-fi soturnas são despropositadas, porque deste desumano e singular facto estético de baixa definição poderão muitos futuros autores de ficção-cientifica retirar inspiração para criar ambientes peculiares que enriquecerão o imaginário futurista dos seus leitores. Excepcional.

Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com


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